Presos PM reformado e ex-PM suspeitos pelos assassinatos de Marielle e Anderson
- 12/03/2019
Policiais da Divisão de
Homicídios da Polícia Civil e promotores do Ministério Público do Rio de
Janeiro prenderam, por volta das 4h30 desta terça-feira (12), o policial
militar reformado Ronnie Lessa, de 48 anos, e o ex-policial militar Élcio
Vieira de Queiroz, de 46 anos. A força-tarefa que levou à Operação Lume aponta
que eles participaram dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do
motorista Anderson Gomes.
O que diz a denúncia
- Ronnie Lessa é o autor dos 13 disparos que
mataram Marielle e Anderson; ele estava no banco de trás do Cobalt que
perseguiu o carro da vereadora. Ele foi preso em casa, num condomínio na
Avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca;
- Élcio Vieira de Queiroz dirigiu o Cobalt. Ele
foi pego também em casa, na Rua Eulina Ribeiro, no Engenho de Dentro.
- A investigação ainda tenta esclarecer, no
entanto, quem foram os mandantes do crime e a motivação.
Segundo informações obtidas pelo G1, Ronnie e
Élcio estava saindo de casa quando foi preso. Eles não resistiram à prisão e
nada disseram aos policiais.
A Operação Lume realiza ainda 32
mandados de busca e apreensão contra os denunciados para apreender documentos,
telefones celulares, notebooks, computadores, armas, acessórios, munição e
outros objetos. Durante todo o dia, haverá buscas em dezenas de endereços de
outros suspeitos.
Após a prisão de Ronnie, agentes
fizeram varredura no terreno da casa dele e encontraram armas e facas.
Detectores de metais vasculhavam o solo, e até uma caixa d'água foi vistoriada.
“É inconteste que Marielle
Francisco da Silva foi sumariamente executada em razão da atuação política na
defesa das causas que defendia”, diz a denúncia, acrescentando que a barbárie
praticada na noite de 14 de março do ano passado foi um golpe ao Estado
Democrático de Direito.
'A mando de quem?', questiona
Freixo
O deputado federal Marcelo Freixo
(PSOL) disse que, apesar das duas prisões, o caso "não está
resolvido". Amigo de longa data, ex-chefe e correligionário de Marielle,
Freixo questionou: "A mando de quem?".
"São prisões importantes,
são tardias. É inaceitável que a gente demore um ano para ter alguma resposta.
Então, evidente que isso vai ser visto com calma, mas a gente acha um passo
decisivo. Mas o caso não está resolvido. Ele tem um primeiro passo de saber
quem executou. Mas a gente não aceita a versão de ódio ou de motivação
passional dessas pessoas que sequer sabiam quem era Marielle direito",
disse em entrevista ao G1 e ao Bom Dia Rio.
Três meses de pesquisas
Ronnie foi levado para a Divisão
de Homicídios do Rio por volta das 4h30. De acordo com os promotores do Grupo
de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o crime foi meticulosamente
planejado durante três meses. O atentado completa um ano nesta quinta-feira
(14).
A investigação aponta que Ronnie
fez pesquisas na internet sobre locais que a vereadora frequentava. Os
investigadores sabem também que, desde outubro de 2017, o policial também
pesquisava a vida de Freixo.
Ronnie teria feito pesquisas
sobre o então interventor na segurança pública do Rio, general Braga Netto,
além de buscas sobre a submetralhadora MP5, que pode ter sido usada no crime.
A polícia afirma ainda que Ronnie
usou uma espécie de "segunda pele" no dia do atentado. A malha que
cobria os braços serviria, segundo as investigações, para dificultar um
possível reconhecimento.
O sargento Ronnie mora no mesmo
condomínio onde o presidente Jair Bolsonaro tem residência, na Barra da Tijuca,
na Zona Oeste do Rio. Élcio foi detido numa casa no Engenho de Dentro, na Zona
Norte.
O nome da operação
A Operação Lume foi batizada em
referência a uma praça no Centro do Rio, conhecida como Buraco do Lume, onde
Marielle desenvolvia um projeto chamado Lume Feminista. No local, ela também
costumava se reunir com outros defensores dos direitos humanos e integrantes do
PSOL. Além de significar qualquer tipo de luz ou claridade, a palavra lume
compõe a expressão "trazer a lume", que significa trazer ao conhecimento
público, vir à luz.
Assessora presenciou o crime
Assessora que estava ao lado de
Marielle Franco quando a vereadora foi executada, Fernanda Chaves afirmou que a
chefe incomodava. Mas ela não soube identificar uma situação específica para
justificar o atentado. “Era um conjunto de coisas, a Marielle incomodava”,
frisou.
Neste domingo (10), Fernanda
falou pela primeira vez sem esconder o rosto. “Ela era obviamente crítica à
ação das milícias, não tinha as milícias como alvo. Institucionalmente, ela
tinha uma limitação como vereadora. O mandato dela estava muito mais voltado
para questões de gênero, de violência contra a mulher”, emendou Fernanda.
A assessora acrescenta que
Marielle não tinha se indisposto com ninguém na época. “Ela não teve um
problema específico que pudesse ter engatilhado uma situação que culminasse com
o assassinato dela”, afirmou.
'Não tenho por que me esconder', diz assessora de Marielle que sobreviveu ao atentado
Linhas de investigação
A delação
Quase dois meses após o crime, em
maio, uma publicação do jornal "O Globo" deu indícios do que pode ter
sido a articulação para matar Marielle. A reportagem mostrou que uma testemunha
deu à polícia informações que implicaram no crime o vereador Marcello Siciliano
(PHS) e o ex-PM e miliciano Orlando Curicica.
A testemunha – que integrava uma
milícia na Zona Oeste do Rio e foi aliado de Orlando – contou à polícia ter
testemunhado uma conversa entre Siciliano e o miliciano na qual os dois
arquitetaram a morte da vereadora. A motivação para o crime, segundo a
testemunha, seria a disputa por áreas de interesse na região de domínio de
Orlando.
"Ela peitava o miliciano e o
vereador. Os dois [o miliciano e Marielle] chegaram a travar uma briga por meio
de associações de moradores da Cidade de Deus e da Vila Sapê. Ela tinha
bastante personalidade. Peitava mesmo", revelou a testemunha, de acordo
com o jornal.
Tanto Siciliano quanto Orlando
negam ter planejado a morte da vereadora. No mês seguinte, o miliciano foi, a
pedido da Segurança Pública do RJ, transferido para uma unidade prisional de
segurança máxima.
Pontos da delação
- Testemunha diz que Marcello Siciliano (PHS) e Orlando de Curicica queriam Marielle morta
- Motivação seria avanço de ações comunitárias da
vereadora na Zona Oeste
- Conversas sobre o crime teriam começado em junho
de 2017
- Ex-aliado de Orlando citou, além de Siciliano e
o miliciano, outras quatro pessoas
- Um homem chamado "Thiago Macaco" teria
levantado informações sobre Marielle
Vingança
Outra linha de investigação
surgiu em agosto: Marielle, que trabalhou com o então deputado estadual Marcelo
Freixo, teria sido morta por vingança.
"Tudo o que eu construí no
Rio de Janeiro, ela construiu comigo. Então é claro que, quando alguém mata a
Marielle, me atinge de forma muito forte, de forma muito brutal. Não sei se
essa era a intenção de quem matou a Marielle”, disse o hoje deputado federal.
Os deputados do MDB fluminense
Paulo Melo, Jorge Picciani e Edson Albertassi, adversários políticos de Freixo,
passaram a ser investigados. Presos por corrupção, os parlamentares negaram
envolvimento no crime.
Também em agosto, foi noticiada a
descoberta de um grupo que ficou conhecido como "Escritório do
Crime", uma quadrilha formada por policiais e ex-policiais. O envolvimento
desse grupo nos assassinatos de Marielle e Anderson explicaria a dificuldade de
esclarecer o caso.
Investigação da Investigação
A Polícia Federal começa a apurar a possibilidade de haver fraudes na investigação do caso. Em 21 de fevereiro, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão para apurar tentativas de dificultar os trabalhos dos investigadores.
G1
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