Moradores de Brumadinho negam ter recebido orientações de evacuação
- 03/02/2019
Moradores da comunidade de Parque
das Cachoeiras, em Brumadinho (MG), afirmam que nunca receberam orientações da
Vale com relação a possíveis riscos da barragem instalada no município ou
planos de fuga e de evacuação em caso de acidentes.
No último dia 25, a barragem Mina
Córrego do Feijão, da mineradora Vale, se rompeu. Até o momento, as autoridades
contabilizam 121 mortos, com 93 corpos identificados. Há ainda 226 desaparecidos
e 395 pessoas localizadas.
De acordo com o programador e
empresário Mário Lúcio Fontes Pato, 64 anos, em nenhum momento houve instrução
aos moradores do que fazer em caso de rompimento.
"Absolutamente nenhum tipo
de informação. Se a sirene tocar, você corre pra lá, corre pra cá ou fica
dentro de casa, por exemplo. Nem eu nem ninguém recebeu treinamento. Se existia
um plano de contingência era no papel, na Vale", destacou o morador.
Ele afirma que recebia,
mensalmente, panfletos da mineradora explicando ações como a instalação de
centros de saúde. Não houve, entretanto, informações ou treinamento para
situações de emergência.
Mulher de Mário Lúcio, Sandra
Maria da Costa, 59 anos, reforça a falta de instruções por parte da Vale. ?O
único alerta que tivemos foi quando, há alguns meses, eles vieram fazer
medições. Nunca tivemos aviso sobre riscos, afirmou.
O empresário afirma que nunca
tinha se preocupado com a possibilidade de acidentes. A Vale fez estudo de
topografia da região, cadastro socioeconômico, colocou sistema de alarmes. Tudo
isso leva a ter certeza de que isso [rompimento] poderia acontecer, mas nunca
tinha parado para pensar nisso. Nunca deixei de dormir pensando que essa barragem
ia estourar, destacou.
Em nota, a Vale informou que a
barragem tinha sistema de vídeo-monitoramento e alerta por meio de sirenes e
cadastramento da população à jusante. "Também foi realizado o simulado
externo de emergência em 16 de junho de 2018, sob coordenação das Defesas civis
e com apoio da Vale, e o treinamento interno com os funcionários em 23 de
outubro de 2018".
Interdição
O empresário é o dono da única
casa da rua que não está interditada pelo Corpo de Bombeiros por ficar em um
lugar mais alto. No fundo da casa, passava um riacho de aproximadamente 3
metros de largura que deságua no Rio Paraopeba. O mar de lama comeu
praticamente tudo ao redor. Segundo ele, até o momento, cinco corpos foram
resgatados na área. Do local onde a barragem estourou até a propriedade são
cerca de 8 quilômetros tomados pelos rejeitos.
Não tem maneira de restaurar o ecossistema e o que tinha aí embaixo, lamenta, apontando para o local onde viu as filhas crescer e brincar.
O casal que mora na região há 35
anos tem vários amigos desaparecidos e afirma que viu a lama tomar conta de
grande parte da história de vida da família.
Momento do desastre
Sandra Maria afirma que estava em
casa no momento em que a barragem estourou. Ela diz que ouviu um barulho de
árvores caindo como se tivesse passando um trator e correu para a janela. ?Eu
vi a lama subindo em uma velocidade absurda, arrancando tudo. Pedaços enormes
de barranco. Ouvi um estrondo quando, provavelmente, a lama atingiu a casa dos
meus vizinhos em uma parte mais baixa da rua, conta Sandra afirmando que ficou
três dias afastada do local por orientação da Defesa Civil e dos bombeiros.
Já Mário Lúcio estava voltando de
Belo Horizonte com uma das filhas que tinha ido ao médico quando ficou sabendo
do rompimento da barragem. Ele conta que dirigiu pelo alto da serra, desviando
da estrada convencional que estava interditada.
Foram 30, 40 minutos de terror,
pensando na minha mulher, no meu neto que estavam em casa e sem saber se a lama
tinha atingido o local.
Agência Brasil
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