Médium João de Deus é considerado foragido
- 16/12/2018
A força-tarefa que investiga o
médium João Teixeira de Faria, 76, conhecido como João de Deus, considera-o
foragido desde as 14h deste sábado (15).
A decisão foi confirmada em nota
pelo Ministério Público (MP) de Goiás. O horário limite para que o suspeito se
apresentasse foi fixado na sexta-feira (14).
"O senhor João Teixeira de
Faria, conhecido como João de Deus, passou a ser considerado foragido, pois as
diligências de localização em todos os seus endereços resultaram negativas e o
comparecimento espontâneo não ocorreu nas 24 horas seguintes à ordem de prisão,
a despeito das tentativas de negociação com a defesa", informou o órgão.
O MP acrescentou que o nome do
médium será incluído na lista de procurados da Interpol. Com isso, ele poderá
ser preso por qualquer autoridade policial brasileira ou estrangeira, caso saia
do país.
O mandado de prisão contra ele já
está público e foi disponibilizado no Banco Nacional de Mandados de Prisão do
Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
A Polícia Civil de Goiás
percorreu, sem sucesso, cerca de 20 imóveis desde a sexta-feira, dia da ordem
de prisão preventiva, à procura do médium e continua negociando a rendição.
No fim da manhã deste sábado
(15), o delegado-geral da corporação no estado, André Fernandes, disse que as
negociações para João de Deus se entregar estão evoluindo e que a apresentação
dele poderá ocorrer neste domingo (16). Falta acertar com a defesa do médium a hora
e o local da apresentação.
Ele afirmou ter conversado pela
manhã com um dos advogados do suspeito, que deu garantias do cumprimento do
mandado de prisão, mas não de imediato. Os advogados do médium, segundo
Fernandes, informaram que vão precisar de tempo.
"Pode ser que não seja hoje
[sábado]. Ele não deve estar em local próximo. Acho que ele pode estar em outro
estado", declarou. Um acerto definitivo com a defesa só deve sair na noite
deste sábado (15).
Os investigadores acreditam que
João de Deus possa estar ganhando tempo para que o Tribunal de Justiça de Goiás
aprecie habeas corpus apresentado neste sábado (15) pela defesa, solicitando
que o mandado de prisão seja revogado.
O caso
João de Deus é suspeito de ter
abusado sexualmente de mulheres durante os atendimentos espirituais que
realizava na cidade de Abadiânia (GO). Ele nega as acusações.
Os casos começaram a tornar-se
público após 13 mulheres relatarem as denúncias no sábado (8) durante o
programa Conversa com Bial, da TV Globo, e ao jornal O Globo.
Na segunda (10), Aline Saleh, 29
contou sua história à Folha de S. Paulo: "Quem tem de sentir vergonha é
ele, e não eu". Ela diz que, em 2013, esteve na casa e que foi levada para
um banheiro, posta de costas e que João de Deus colocou a mão dela em seu
pênis.
Segundo a Promotoria de Justiça
de Goiás, 335 contatos já foram recebidos, com mensagens principalmente por
email, incluindo também outros seis países (Alemanha, Austrália, Bélgica, Bolívia,
Estados Unidos e Suíça).
Também foram colhidos os
depoimentos de 30 pessoas nos Ministérios Públicos de São Paulo, Minas Gerais,
Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Espírito Santo.
Em comum, a maioria das mulheres
diz que recebeu um aviso de procurar o médium em seu escritório ao fim das
sessões em que ele atende aos fiéis.
No local, segundo as vítimas,
João de Deus dizia que elas precisavam de uma "limpeza espiritual"
antes de abusá-las sexualmente. Entre as vítimas estariam mulheres adultas,
crianças e adolescentes.
O promotor Luciano Miranda
Meireles afirmou que os depoimentos podem ser a única forma de comprovar as
acusações, já que crimes como estupro não ocorrem à luz do dia nem têm
testemunhas.
Abadiânia
Cidade que abriga as obras
religiosas e sociais de João de Deus, Abadiânia amanheceu neste sábado em clima
de expectativa sobre a prisão de seu morador mais célebre.
A partir das 10h, a Casa da Sopa,
ligada à Casa Dom Inácio de Loyola, do médium, promoveu tradicional festa de
Natal com distribuição de lanches e brinquedos para crianças. O evento se
repete há 15 anos e, em algumas ocasiões, o próprio João de Deus fez as vezes
de Papai Noel.
Pais e filhos formaram fila para
ganhar os brindes, mas afirmavam que a frequência foi menor este ano.
"Achei mais vazio",
disse a auxiliar de cozinha Selma Rodrigues Barbosa, de 42 anos, que levou uma
"escadinha" de sobrinhos ao local, em frente à casa de João de Deus,
para brincar, ver Papai Noel e ganhar os brindes. Ela considera o médium uma
pessoa espetacular, que ajuda muita gente, mas defende uma investigação séria
sobre as denúncias.
Apesar da percepção do público,
os organizadores sustentaram que 1.500 pessoas foram ao local, mesmo número do
ano passado.
Em um momento tumultuado da
festa, a mulher de João de Deus, Ana Keyla Teixeira, discursou neste sábado
(15): "Apesar das turbulências que estamos enfrentando, peço a vocês que
continuem orando para que a verdade prevaleça". Em seguida, saiu em
disparada para dentro da Casa da Sopa, para evitar as perguntas dos
jornalistas.
O escândalo sobre os supostos
abusos atraiu para a cidade goiana um novo público de curiosos, a exemplo de
Milton Felício Barbosa, 50 anos, que viajou de Brasília à Casa Santo Inácio de
Loyola para assuntar sobre o ocorrido.
"Fiquei curioso e resolvi
ver de perto. Achei um lugar maravilhoso. As pessoas aqui têm dito que é
preciso separar a pessoa de João de Deus dos objetivos do local",
comentou.
Logo após as denúncias serem
tornadas públicas, o Ministério Publico de Goiás defendeu o fechamento da casa.
"Estão querendo achar um
culpado e levar a instituição junto", protestou o ex-prefeito de Abadiânia
Francisco Lobo, o Chico Lobo, espécie de relações públicas do centro mantido
por João e Deus. "Mesmo que não tenha o mentor, [o lugar] tem de estar
aberto para orações."
Ele diz acreditar na inocência do
médium e sustenta que João de Deus não fazia atendimentos individuais de
mulheres, conforme vem sendo noticiado.
O movimento no centro de orações
e cirurgias espirituais mantido pelo médium era baixo neste sábado (15).
Chamava mais atenção a quantidade de jornalistas do que a de frequentadores
habituais.
Uma belga, que não quis se
identificar, declarou não acreditar na veracidade das centenas de testemunhos.
Ela diz que João de Deus é um homem de mais de 60 anos e que, fosse um
abusador, não teria os dons de cura que apresenta. "Essas pessoas
[denunciantes] estão vivendo uma ficção, um thriller", comentou.
Folhapress
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